Pinóquio num desenho antigo

A Mentira de Perna Longa

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A desinformação é uma das novidades do nosso tempo, não por ser absolutamente nova, porque sempre houve desinformação, mas pela escala.

Desengane-se quem foi posto a pensar que desinformação é o mesmo que ‘fake news’. Não é. Não comparemos a mentirinha de perna curta que qualquer pessoa consegue produzir, cujo precursor é o antigo boato, ambos de efeitos limitados e localizados, com as grandes narrativas desinformativas. Uma dessas narrativas é, precisamente, a que nos tenta convencer de que o problema está nas ‘fake news’, ou seja, de que o problema está em nós, por interpostas redes sociais, desviando o foco das grandes e altamente profissionalizadas estruturas que produzem, de facto, a desinformação que mexe com as nossas percepções do mundo.

Na nossa época, a desinformação é, basicamente, o instrumento de um poder irrestrito. O poder conjugado da comunicação estratégica e dos interesses poderosos que aquela serve, das máquinas de distribuição e amplificação dessa comunicação, vulgo média, e do controlo algorítmico dessa distribuição pelas ‘big tech’. Ao mesmo tempo, os dispositivos de que a cidadania dispunha para se defender, estão mais enfraquecidos do que nunca: os média de massas passaram-se quase completamente para o campo contrário, mantendo-se como meros eufemismos da antiga e honrosa figura do ‘cão de guarda’.

Enquanto o jornalismo teve meios para combatê-la, redacções robustas com gente corajosa, capaz de lutar pela busca da verdade, e ter algum sucesso nessa luta, a desinformação fez um caminho limitado. Um dos papéis do jornalismo era o de servir uma função de regulação, que, por vezes, chegava ao ponto de conseguir fazer o escrutínio de alguns dos poderes – os jornalistas ainda podiam viver, assim, de acordo com o mito que orientou a vida de muitos (de nós, eu também me incluo) de que tinham uma missão de vigilância da democracia. Mas, a desinformação era também limitada por outra razão: tinha de pôr em campo dispositivos abertamente censórios, para poder ser efectiva.

Agora, já não é preciso. Pode continuar a vender-nos a ilusão de que somos livres para dizer o que queremos, e é verdade que dizemos, mas se poucos o vêem ou o lêem, de que interessa essa liberdade?

É certo que a grande propaganda fez sempre caminho. Isso está demonstrado nos inúmeros estudos que provam o alinhamento ‘patrioteiro’ entre os média e os interesses dos estados e das grandes corporações em questões como a guerra ou as grandes cisões ideológicas, leste/oeste, norte/sul, civilização/barbárie, capitalismo/comunismo.

Mas, ao longo de décadas, após a segunda guerra mundial, o raio de acção jornalístico ainda conseguiu que nem todos os processos desinformativos vingassem. Foi-nos possível, como cidadãos, saber a verdade ou, pelo menos, aproximar-nos dela.

Já não estamos aí. Nos média, triunfou o regime espectacular, em que a visibilidade esmaga o conhecimento, e o ver dispensa o ler, o compreender e o saber.

As consequências para a experiência democrática, penso, estão à vista.

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