Uma das questões mais interessantes na minha opinião que aparecem nalgumas culturas é a pouca transmissão das experiências entre geração e geração, de que foi o que funcionou bem, quais foram os erros, que foi o que se aprendeu, a transferência intergeracional, as pessoas maiores como a fonte principal de sabedoria. Daí que muitas vezes continuemos em laços infinitos, repetindo erro após erro, sem saber que isso já foi experimentado antes, que o mundo não começou agora, as condições eram diferentes, a tecnologia, mas a gente vivia, experimentava, errava, aprendia.
Por isso é impressionante a visão que temos por exemplo da Idade Meia, não só polo próprio termo, mas também polos adjectivos que se lhe incorporam, como gostaríamos que gerações daqui um milénio (se chegarmos) nomeassem à nossa época? Idade escura? Idade do conhecimento? Idade da mudança climática? Já agora, lembro como se lhe chama à época na que o galego na Galiza não tinha expressão escrita, os chamados séculos escuros, um bonito nome para por um lado negar que Camões escrevia na nossa língua ou para pensarmos que a gente vivia numa noite perpetua. Quanta época de ego vivemos.
Todo este pensamento que o impregna tudo, achar que só a época atual é inovadora, também afecta ao mundo da tecnologia, mas isso falaremos mais adiante.
Já agora queria falar de uma obra mestra em restauração atualmente chamada Portal da Glória. Nela existe um coro de músicos com muitos instrumentos na maioria de corda que rodeiam a Deus. É muito interessante quanto menos para mim um deles: o organistrum. Um instrumento de corda frotada tocada por dous músicos, um da-lhe a uma manivela que por sua vez fai vibrar umas cordas e com umas espadelas o outro músico para a vibração gerando por tanto umas notas. Quanto mais longe da manivela mais graves e quanto mais perto mais agudas.

Como era um instrumento muito grande para transportar, daí nasceu mais adiante um organistrum portátil chamado sanfona que ainda hoje se toca em Europa. O mesmo ocorreu com os computadores, que não tinham muita mobilidade e daí a Epson HX-20, desenvolvida em 1981, a partir da qual a gente começou a ter mais tempo para conviver com as máquinas e já sabemos o resto: bares cheios de moços, velhos e meninhos ligados às redes sociais comendo-se o mundo.
Seria interessante que alguém nos contasse que já na Idade Meia a gente inovava, o fixo passou a ser portátil, e que por muito que pensemos, no fundo quase tudo foi inventado.
Este artigo foi publicado inicialmente pelo autor no pgl.gal e reproduzido com a sua permissão.


