Marco Neves: “África vai passar a ser o continente com mais falantes de português”

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<<O linguista aborda o fundamental da língua portuguesa: a origem galaico-portuguesa, sotaque “lisboeta” e o sotaque padrão, e as diferenças entre o português europeu e brasileiro. Nas redes sociais, é um caso de sucesso pelo modo como aborda o português, além do “certo e errado”. Tudo começou numa “viagem” no TikTok

A nossa língua deve ser designada português ou galaico-português?
A designação galaico-português foi criada no século XIX para descrever uma coisa que existiu, antes de haver Portugal, e que não pode ser chamada português. Antes da nacionalidade, já se falava essa língua, naquilo que é agora a Galiza,o Minho e uma parte de Trás–os-Montes. Não tinha um nome, embora alguns galegos digam que já seria “galego”. Houve mesmo um poeta francês que assim lhe chamou. O que as pessoas falavam no dia-a-dia, não era bem-visto e era apenas “linguagem”, que começou a ser um pouco mais bem vista, quando os poetas começaram a usá-la nos poemas, mas não lhe chamavam português nem galego. Já não era latim, mas a língua do dia-a-dia. Quando Portugal se tornou um país independente, começou bastante mais cedo do que outros países na Europa, a usar a sua própria língua nos documentos oficiais. D. Dinis é muitas vezes associado a isso, mas já antes se fazia. Mas essa língua ainda não se chamava português. Só no século XV é que alguém o baptizou como “português”. A grande dúvida – para os galegos, em especial -, é se galego e português são a mesma coisa. Há alguns, uma minoria, que defendem que sim e escrevem o galego segundo as regras da ortografia portuguesa. Mas mesmo os que não defendem essa ideia, escrevem e falam algo muito parecida como português do norte falado pelas gerações mais velhas. Se ouvirmos um galego de uma aldeia da zona do Gerês/Xurês e um português de uma aldeia do lado de cá, não notamos muitas diferenças. Claro, se ouvirmos alguém da cidade a falar, escutaremos um galego muito castelhanizado. É uma das fronteiras mais antigas do mundo, datada do século XII, e, linguisticamente, a fronteira é quase como se não existisse. Só nas últimas décadas, porque os galegos falam mais castelhano e nós falamos mais “à lisboeta” é que se começou a notar uma maior diferença. É algo que começou nos últimos 50 ou 60 anos.

O País fala “à moda de Lisboa”?
As pessoas associam muito o sotaque à região, mas o vocabulário que usamos e muitos outros aspectos da língua mudam não só com a região, mas com a classe social, com a família ou com os grupos profissionais. Nos últimos 200 ou300 anos, na Europa, criou-se a necessidade, por passarmos a ter estados centralizados, com escolas e comunicação social, de termos uma forma considerada “correcta” de falar e de escrever. Na escrita, faz sentido, porque temos de ter um padrão, mas, na oralidade, acabou por criar-se esta ideia, mais ilusória do que real, de que há uma forma correcta e as outras são deturpações, quando, muitas vezes, as“deturpações” são mais antigas do que a suposta forma correcta. Que sotaque é este que chamamos de sotaque padrão? É difícil de definir. Não é exactamente lisboeta, porque há muitas pessoas em Lisboa que têm um sotaque muito diferente, até de bairro para bairro. É um sotaque baseado nos usos da Corte e das elites das cidades do litoral, que vão de Lisboa até Coimbra, incluindo Leiria. Ninguém definiu isto. Foi um processo relativamente natural, por causa do poder destas cidades no País. Todos os países têm tendência para ter um sotaque padrão, mas há países que lhe dão mais importância do que outros. E Portugal dá bastante importância. Era difícil, até há pouco, vermos na televisão alguém com um sotaque diferente. Temos exemplos absurdos de séries de televisão que se passam noutras zonas do País e as pessoas falam todas à lisboeta ou com tentativas de limitar o sotaque local, o que, por vezes, ainda é pior.>>

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