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| Ferrol, 2020 Zero tostões pagávamos de aluguer. Era um quarto andar, banal e normal. pela traseira dava para uma quadra semi-fechada, pela dianteira à rua própria, à Atocha e à Martel. No prédio do lado morava um militarão: durante um centenar de dias menos um emitiu para todo o quarteirão em altos bemóis, notas sobre ‘culos blancos’ e ‘Resistirés’. Todavia sobrevivemos aos ‘resistirés’; e aos ‘culos blancos lavados con Ariel’; e aos ‘sobrevivirés’ entoados aos berros, por pura resiliência e máxima impotência. Na casa tínhamos cartazes de abril e, é claro, nenhum (a)pasta-cães, e com as vidas em arresto domiciliar, cada dia dos 99 maternava eu mais um bocado. Não via o mar desde a minha janela, mas à rua chegavam pavões do parque. E procurava escusas para me desconfinar, mas todos os dias voltava para me refugiar na minha materna doçura. As mulheres continuávamos opressas e íamos à aldeia com o medo da punição; um novo recuo parecia estar em caminho; nas janelas cada vez mais bandeiras e nas ruas cada vez menos pessoas. Tínhamos um pacto assumido e com o novo ano o ele foi sofrido e cumprido, mais quinze dias de isolamento a três. E tudo está ainda tão fresco, vigente e em processo que mal enxergamos as más decorrências que nos aguardam. | Ferrol, 1916 Cinco duros pagábamos de aluguer. Era um terceiro andar, bem folgado. Pola parte de atrás dava para o Campinho, e por diante para a rua de Sam Francisco. No segundo vivia a minha tia aboa: Tiña unha peza cheia de paxaros disecados que só abria os dias de festa para que os nenos disfrutásemos nela. Ainda vivia minha mãe e todos os meus irmaos viviam, e em frente trabalhava o senhor Pedro o tanoeiro, e a grande tenda de efeitos navais mantinha o seu trafego. Na casa tinhamos pombas e, por suposto, un grande gato mouro; e o mee pai era novo ainda e no mar do mundo cada dia descobria eu unha ilha. Via o mar da minha fiestra, e chegavam cornetas da marinha. E baixava os degraus duas vezes ao dia para ir à escola, e duas vezes rubia-os de volta. As mulheres entom usavam capa e corsé, e íamos à aldeia em coche de cavalos, e a rua estava ateigada de pregons de sardinhas e de ingleses que vendiam Bíblias. Eu tinha un pacto con Deus: que ninguén dos meus morreria. E o pacto era observado, e eu confiaba na perenidade do pacto. Todo isto fica tam longe que aduro podo ainda lembrá-lo. Esqueceria-o dentro de pouco tempo se non escrebese estes versos. |
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