Varge, nordeste transmontano, 25 de Dezembro de 1999. Depois da missa de Natal, e sob forte chuva, os rapazes mascarados desfiam as loas, uma modalidade de crítica social. Atrás dos caretos, o povo – expressão materializável no conjunto vicinal.
Aqui, cada aldeia é um povo, e todos os vizinhos, salvo os enluta dos, são conduzidos para ouvir as loas. À chuva, procuram pontos altos onde a vista seja melhor, e riem. Durante este momento do ciclo do Inverno os moços são investidos de autoridade para criticar.
Após uma fórmula de saudação, seguem-se três ou mais loas. Uma envolve o espalhafato, com a representação de uma cena jocosa, vestindo os rapazes roupas furtadas aos visados: se em 1982 se centrava na incapacidade de adaptação à vida na aldeia de uma jovem de uma vila próxima, em 1999 era a administração de Viagra a um porco de cobrição comprado em Espanha e em 2004 uma desavença doméstica com a intervenção das autoridades e a irradiação do marido agressor.
As temidas loas dedicadas às raparigas denunciam um raio matrimonial lato, a endogamia a ceder o lugar à isogamia, e um crescente ressentimento masculino pela inexistência de parceiras. As loas, num nível mínimo, e a Festa dos Rapazes como um todo cerimonial, reflectem a aldeia e as alterações no contexto.
Em 1982, eram vários os rebanhos, muitas as crias mirandesas e quase todos os homens e mulheres residentes cultivavam as terras, ainda que as duas décadas anteriores houvessem provocado forte sangria demográfica.
Em Maio de 2005, só uma família tem ovelhas e sobrevive da agricultura; há mais casas registadas no censo de 2001 do que indivíduos.
Os que partiram ou partem sazonalmente – ladrilhadores e camareros em Madrid, trabalhadores nas obras públicas em Bilbau, ménage e bâtiment em Paris, estudantes universitários no Porto ou em Coimbra – regressam em Setembro para o S. Miguel e para o Natal, este patrimonializado na sua evanescência, com a folia a romper por onde pode.
No resto do tempo, Varge é grisalha.
Este artigo foi publicado originalmente pela autora na revista etnográfica e reproduzido com a sua permissão
URL: http://journals.openedition.org/etnografica/19134

