mapa a PB do Irão

O Irão faz fronteira com a Venezuela

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… na verdade, faz fronteira com todos os países cujas economias têm vindo a ser fustigadas pelas sanções, unilateralmente impostas pelos Estados Unidos. Sanções que constituem, em si mesmas, uma violação da Carta das Nações Unidas. Nenhum país pode, unilateralmente, sancionar outro. Os Estados Unidos fazem-no porque ainda dispõem de um poder assimétrico: controlam, através do dólar, a economia mundial. E transformam, por isso, nestes casos, o dólar, e o sistema financeiro que lhe está associado, em armas para fazer guerra económica.

Guerra de anos, décadas.

Por muito silenciosa que ela pareça, não se pense que esta guerra não tem feito vítimas. Tem feito, e não são poucas. Um trabalho, recentemente publicado na prestigiada revista científica Lancet, refere que a guerra económica lançada pelos Estados Unidos, muitas vezes apoiada e coadjuvada pelas potências europeias, contra países que contestam a sua hegemonia geopolítica, provoca anualmente mais de 564 mil, anotemos bem, mais de meio milhão de mortes em excesso, nos países afectados pelas sanções, um número comparável ao número anual de vítimas de conflitos armados. Os mais atingidos por este excesso de mortalidade são os idosos e as crianças.

Mais de meio milhão de mortos, por ano. Dezassete milhões de mortos, só nos últimos trinta anos (!). Porque não há acesso a medicamentos, não há acesso a alimentos, não há acesso a bons serviços de assistência e de urgência, a vida, nesses países, torna-se luta pela sobrevivência. As sanções e os bloqueios económicos são, por isso, um instrumento cruel de guerra contra os povos.

No caso do Irão, desde 1979, ou seja, desde o momento em que a Revolução Islâmica triunfou sobre o regime ditatorial do Xá (1), que o país é alvo das pesadas sanções de Washington. Com o tempo, tornou-se mesmo o país mais sancionado do mundo, só ultrapassado em 2022 pela Rússia, após a invasão da Ucrânia.

É importante que, ao observarmos realidades aparentemente distantes, como a iraniana ou a venezuelana, entendamos que, nunca, as sanções visam melhorar a condição futura dos povos, instalar a ‘democracia’ em vez da ‘autocracia’, ou promover outras formulações de suposta virtude e intencionalidade de que vêm normalmente vestidas pelos média, cada vez menos jornalísticos e cada vez mais propagandísticos. A política unilateral e assimétrica de sanções, baseada no poder de um ‘hegemon’, aplica sempre a mesma receita: tornar, primeiro, a vida dos cidadãos, miserável, para obter, depois, ganhos geopolíticos.

Entendamo-nos. As sanções são sempre uma guerra travada contra os povos para levá-los à revolta, que há-de acontecer, mais cedo ou mais tarde, apoiada no duplo factor de fragilidade interna dos regimes, pelo desgaste causado pela própria situação de guerra económica, e de intervenção mais ou menos disfarçada das potências externas interessadas no controlo geopolítico, no ‘momento certo’. Repare-se como as sanções são uma guerra produzida para gerar duas grandes categorias de ameaças: enquanto os governos percebem e identificam a ameaça geopolítica, vinda do exterior, e agem contra ela, os povos, para os quais a geopolítica é um conceito distante e, muitas vezes, abstracto, percebem essencialmente uma ameaça interna, contra o seu dia-a-dia, as suas condições imediatas de vida, cuja degradação só podem atribuir aos seus governos.

Ora, facilmente concluiremos que este desfasamento da percepção das ameaças cria e intensifica as condições para o autoritarismo — os governos tendem a agir contra aqueles que protestam considerando-os ‘inimigos do Estado’ ou ‘agentes estrangeiros’. Criam-se, desse modo, condições objectivas para o aumento dos abusos dos direitos humanos, abrindo, assim, a possibilidade de uma intervenção externa, que até pode ter, em alguns casos mais extremos, cobertura do direito internacional humanitário. Daí que devamos ter muito cuidado na análise do que classificamos, hoje, como autocracias.

Serão mais autocráticos o Irão ou a Venezuela, hipersancionados, ou, por exemplo, a Arábia Saudita?


  1. Resultante do golpe de estado de 1953, instigado pelos Estados Unidos e Reino Unido, contra o presidente democraticamente eleito Mossadegh, quando este decidiu nacionalizar o petróleo iraniano. ↩︎

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