Ave característica do Alentejo enfrenta um declínio crítico, apresentando uma proporção de fêmeas drasticamente inferior à de machos.
Redação |
O sisão, ave característica das planícies do Alentejo, enfrenta um declínio crítico. A população da espécie encolheu 80% em duas décadas e o atual cenário de conservação é mais sombrio do que qualquer previsão traçada. Quando a espécie foi listada como “vulnerável” no Livro Vermelho de 2005, já se antecipavam ameaças decorrentes das mudanças agrícolas, as alterações climáticas, as linhas elétricas e projetos com energias renováveis. Contudo, a velocidade e a gravidade do declínio superaram as expectativas mais pessimistas
Desde 2006, Portugal perdeu mais de três quartos da população reprodutora. O problema, contudo, vai além dos números absolutos: a estrutura da espécie está a colapsar, apresentando uma proporção de fêmeas drasticamente inferior à de machos.
O plano de salvaguarda preconizado por investigadores do CIBIO/ BIOPOLIS da Universidade do Porto foca-se em medidas para impulsionar o sucesso reprodutivo, reforçar a taxa de sobrevivência e combater as causas de mortalidade não natural.
A proposta foca-se na proteção de áreas onde a espécie se reproduz dada a fidelidade do sisão aos seus locais de reprodução tradicionais. A medida implicaria a vigilância e o estabelecimento de contratos de gestão com agricultores para mitigar ameaças como a mecanização agrícola.
Propõe-se a criação de reservas financiadas por medidas compensatórias de projetos, como regadios e parques renováveis. Também é crucial reformular os incentivos agrícolas, recuperando o conceito de pousio obrigatório. Mas não só, seria preciso interditar o pastoreio e o corte de feno em áreas estratégicas durante o período reprodutor, para proteger os acasalamentos e evitar a destruição de ninhos. Propõe-se também fomentar o cultivo de leguminosas em regadio, garantindo alimento proteico essencial nesta fase crítica. Nas zonas de invernada, é essencial manter restolhos com 30 a 40 centímetros de altura para garantir o alimento durante os meses frios e oferecer proteção contra predadores.
O plano também incide na preservação de áreas abertas em solos produtivos para onde o sisão migra no verão. A conversão destes terrenos em culturas permanentes ou centrais fotovoltaicas deve ser travada. É urgente criar mapas de sensibilidade para orientar a instalação de centrais renováveis e linhas elétricas que evitem novos projetos para proteger os habitats durante todas as fases do ciclo anual.
O sucesso da conservação depende do envolvimento de toda a sociedade, com foco especial nos agricultores e nas suas associações. É essencial que as medidas sejam estáveis, previsíveis e financeiramente atrativas, garantindo a colaboração ativa de quem gere o território.
Quanto à distribuição do sisão na faixa atlântica, o Alentejo permanece como o principal bastião da espécie, com destaque para Castro Verde, além das zonas de Campo Maior, Elvas e Mourão. Na Beira Baixa mantém-se núcleos relevantes na região de Idanha-a-Nova, enquanto em Trás-os-Montes a presença da ave é mais residual e fragmentada, concentrando-se no Planalto Mirandês. A norte da Minho, a presença do sisão é também pontual, sendo a sua distribuição descontínua e fragmentada. Confirma-se a sua presença na Terra Chã (Lugo) e na Límia.

