Os trabalhadores da RTP também são contrários a que Portugal fique na Eurovisão junto a Israel
Redação |
Israel garantiu a sua participação no Festival Eurovisão da Canção 2026 depois de a União Europeia de Radiodifusão (UER) ter decidido não convocar uma votação específica para debater a sua exclusão. A decisão foi tomada apesar das crescentes ameaças de boicote por parte de várias emissoras europeias. Na reunião de Genebra, foram discutidos dois pontos principais: a aceitação ou não da participação de Israel e a busca por medidas para impedir que o país manipulasse os resultados do concurso em seu favor.
No entanto a manutenção da participação israelita, através da emissora KAN – Corporação Israelita de Radiodifusão Pública – foi alvo de forte crítica. No seu discurso à Assembleia Geral, o secretário-geral da Radio Televisión Española declarou: “Gostaríamos de expressar nossas sérias dúvidas sobre a participação da emissora israelita KAN no Festival da Eurovisão 2026. A situação em Gaza, apesar do cessar-fogo e da aprovação do processo de paz, e o uso do concurso por Israel para fins políticos, tornam cada vez mais difícil manter o Festival Eurovisão como um evento cultural imparcial“.
Por sua parte a emissora dos Países Baixos Avrotros declarou que a sua “participação não era compatível com os seus valores públicos fundamentais“. A eslovena Radiotelevizija Slovenija anunciou o boicote “em nome das 20.000 crianças que morreram em Gaza“. A emissora pública irlandesa Raidió Teilifís Éireann explicou que tomou a sua decisão “perante a terrível perda de vidas em Gaza e a crise humanitária em curso“. Também, a Ríkisútvarpið islandesa, anunciou em comunicado de imprensa a sua não participação explicitando que “foi repetidamente deixado claro que os interessados deste pais, como associações de artistas e o públicos islandês, eram contrários à participação no concurso”.
Ainda, as televisões públicas da Bélgica, a Suécia e a Finlândia indicaram que estão a considerar tomar a mesma decisão de boicote, com outros anúncios esperados nas próximas horas.
Os trabalhadores da RTP contestaram que Portugal fique na Eurovisão junto a Israel. A tomada de posição foi enviada à administração, num documento que insta o Conselho de Administração a “reavaliar urgentemente a sua posição e a pronunciar-se publicamente contra a participação de Israel em 2026“. A iniciativa conta com o apoio das duas listas que concorreram à Comissão de Trabalhadores, da Subcomissão de Trabalhadores do Porto, pelo Sindicato dos Jornalistas, Sindicato dos Trabalhadores de Telecomunicações, Sindicato Nacional dos Trabalhadores das Telecomunicações e do Audiovisual e do Sindicato dos Meios Audiovisuais, Sindicato Independente dos Trabalhadores da Informação e Comunicações.
Salvador Sobral, vencedor da Eurovisão em 2017, classificou a decisão como um exemplo de “cobardia política, (…) coerente com a cobardia institucional, das instituições públicas“. Ele defendeu que a RTP deveria realizar o Festival, mas que o vencedor não fosse enviado para a Eurovisão, sendo premiado de maneira alternativa.
Num comunicado divulgado esta quarta-feira, 17 artistas declararam a sua recusa em participar no Festival “caso sejamos representantes da canção vencedora do Festival da Canção em março do próximo ano”. “Entendemos que o país e o mundo vivem momentos em que o silêncio nos torna cúmplices de uma tragédia. Com palavras e com canções, agimos dentro da possibilidade que nos é dada. Não compactuamos com a violação dos Direitos Humanos. E resistimos com a cultura, com a cultura portuguesa”, declaram os artistas num comunicado conjunto.

