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Enquanto bombeiros lutavam incansavelmente contras os incêndios que consumiram vastas áreas da Galiza, Portugal e outros territórios da Península Ibérica, uma frota de aeronaves especializadas de fabricação russa, permanecia inativa nos hangares por sanções geopolíticas.
Em fevereiro de 2024, tudo mudou com a inclusão da Kamov na lista de entidades russas sancionadas por Bruxelas, devido ao facto de helicópteros desse fabricante terem sido utilizados pela Rússia no campo de batalha ucraniano.
Os oito helicópteros Kamov Ka-32 contratados pelo governo espanhol têm capacidade para 4,5 toneladas de água – incluindo o “bambi bucket”, cesto utilizado para lançar água em áreas afetadas por incêndios – acumulando descargas próximas a 40.000 litros por hora em distâncias curtas.
As sanções económicas impostas à Rússia em 2022 em resposta à guerra com a Ucrânia, impactaram diretamente a indústria aeronáutica global. As peças de reposição e os serviços de manutenção, que vinham da Rússia, tornaram-se inalcançáveis pois a manutenção de aeronaves é um processo rigoroso e altamente especializado, que exige a certificação de componentes e o acesso a manuais e peritagem que, na maioria dos casos, são exclusivos do fabricante.
De acordo com uma reportagem do site Aeroin.net, um dos mais respeitados do setor aeronáutico, essa situação afeta diretamente frotas em todo o mundo. “Muitos operadores de aeronaves de fabricação russa, que antes confiavam em um fluxo constante de peças e suporte técnico, agora enfrentam a incerteza de voar com peças envelhecidas ou simplesmente a impossibilidade de realizar a manutenção necessária,” afirma a publicação.
Enquanto isso, a busca pelos estados de alternativas está em curso, mas não é um processo simples. A aquisição de novos helicópteros de fabricantes ocidentais, como a Airbus Helicopters ou a Sikorsky, não é apenas dispendiosa, mas também demorada. Exige a compra de novas máquinas a formação de pilotos e mecânicos e a construção de uma nova infraestrutura de apoio logístico.
A paralisação dos helicópteros Kamov é uma narrativa sobre a interconexão global, sobre a fragilidade das cadeias de fornecimento e sobre o custo invisível das guerras, que se manifesta não só nos campos de batalha.
O governo espanhol reconheceu uma diminuição na sua capacidade de extinguir incêndios devido à perda dos helicópteros de origem russa. A última campanha de 2024 foi a primeira em que os Kamov estiveram ausentes dos grandes incêndios, apesar de o Sumar — parceiro de governo do Partido Socialista Obrero Español (PSOE) — ter instado a que fossem levantadas as sanções para que, em 2025, estes grandes helicópteros voltassem a integrar as equipas de extinção.
Os técnicos russos não podem deslocar-se a Espanha – nem as aeronaves à Rússia – para inspecionar e certificar os aparelhos pertencentes a operadores privados que os alugavam a cada temporada de incêndios ao Ministerio de Transición Ecológica. As empresas proprietárias estão até a pensar em vendê-los a empresas de outros países não europeus – como a Sérvia – que não estão sujeitas às normas impostas por essas sanções à Rússia.
Com vista à preparação da campanha contra incêndios de 2025, o Ministerio de Transición Ecológica planeou um catálogo de meios aéreos no qual o Ka32 foi substituído, mas o Governo indicou que «não existem no mercado helicópteros com uma relação custo-capacidade semelhante à dos Kamov» e admitiu na memória justificativa do contrato uma redução para o «Serviço com meios aéreos de apoio às Comunidades Autónomas na extinção de incêndios florestais. Anos 2025, 2026 e 2027», que atingiu os 187 milhões de euros.
A decisão imposta de não utilizar os Ka-32 exemplifica uma falta de soberania e é resultado da política de sanções contra a Rússia imposta por Washington e Bruxelas, quando a Rússia ajudou a extinguir a onda de incêndios em Portugal nos verões passados.
Contraditoriamente, pela sua parte, a Ucrânia empregou em operação real os helicópteros Kamov Ka-32, doados por Portugal em meio ao conflito com a Rússia. Essas aeronaves, adquiridas em 2006, também enfrentaram problemas operacionais devido à falta de fornecimento de peças e à interrupção no cronograma de manutenção por parte de fornecedores russos.
Em 2022, as unidades doadas pelo governo do socialista António Costa foram transportadas por camiões para a Ucrânia, cujo Serviço de Emergência, em parceria com a indústria local, conseguiu restaurar as condições de aeronavegabilidade dos helicópteros.
O Ministério da Defesa de Portugal concluiu o envio dos helicópteros russos para as Forças Armadas da Ucrânia, que haviam sido comprometidos em 2022 pela então ministra Helena Carreiras. Recolhendo declarações do comunicado oficial do governo português: “Após um longo período de incerteza e negociações, o atual Governo, através do MDN, em colaboração com o Ministério do Interior, coordenou o transporte dos helicópteros com as autoridades ucranianas, em particular com a Embaixada da Ucrânia em Lisboa e com o Ministério da Defesa da Ucrânia.”
Os helicópteros aguardavam desde 2018 para serem submetidos a um amplo trabalho de manutenção programada; algo que impedia seu uso operacional no combate a incêndios, tarefa que ficou parcialmente sob a responsabilidade da Força Aérea Portuguesa.
O governo português selecionou a plataforma que substituiu os Ka-32 entregues à Ucrânia, a saber: os helicópteros americanos UH-60A Black Hawk. As duas primeiras unidades, de uma frota prevista de seis helicópteros para 2026, estão em mãos do Esquadrão 551 “The Panthers” da Força Aérea Portuguesa, realizando seu primeiro voo operacional em dezembro do ano passado. Em detalhe, essas aeronaves foram ajustadas pela Arista Aviation nos EUA e têm capacidade para carregar até 2839 litros de água para cumprir sua função na mitigação de incêndios rurais.
A paralisação dos helicópteros russos é um lembrete sombrio da interconexão do mundo e de como as decisões geopolíticas têm também consequências diretas em crises humanitárias e ambientais nos países sancionadores.

