Há um ser humano de nome Filipe Araújo (Vila Nova de Famalicão, 1966), que nas últimas eleições autárquicas foi candidato do Bloco de Esquerda à Câmara de Famalicão, que trabalha no campo da Educação Física e do seu ensino, e que foi especializando-se em ginástica de academias.
E há um Luís Serguilha, pseudónimo literário da mesma pessoa, que publicou vários livros (O Périplo do Cacho; O Outro; Entre Nós, narrativa, 2000; Lorosa’e – Boca de Sândalo, 2001; O Externo Tatuado da Visão, 2002; O murmúrio livre do pássaro, 2003; Embarcações, 2004), que já pode exibir certa carreira literária (prémio no Concurso Literário Júlio Brandão de 2000, Menção Honrosa no mesmo concurso em 2001), e que nessa carreira também foi especializando-se numa ginástica efervescente com as palavras.

No seu último título, A Singradura do Capinador (Indícios de Oiro, 2005), com prefácio de Ernesto de Melo e Castro, assenta-se tal forma de andar, não sendo inocente na declaração da sua singularidade uma disposição da mancha do texto no sentido longitudinal da página. Indício de singularidade, porque só ao ler, ao mergulhar, se percebe que romper formas nessa mudança simples é a mínima marca de que nos conteúdos, nas imagens, nas palavras, as margens não bastam, não servem, não são convenientes.
Pois trata-se de uma poesia que é (cito) «mar de palavras, imagens, metáforas, intermináveis e diferentemente sempre iguais, podendo os poemas começar e ter minar em qualquer delas, em qualquer lugar ou tempo. Um interminável magma de sugestões, um escaldante rio de lava, é o que o leitor recebe, ao ler os poemas deste livro… Mar, magma, rio, lava, ebulição, energia em transformação, são certamente as metáforas que eu, como leitor, recolho destes textos, a que por isso mesmo chamo de poesia». Palavras de Melo e Castro referidas a Embarcações, e que significativamente reutiliza ao referir-se a este, A Singradura do Capinador, num segundo prefácio que complementa aquele, como os livros dalgum modo se continuam ou justapõem.
E não tem desperdício a abordagem que pratica o ícone da poesia experimental portuguesa, uma abordagem que começa em forma de manifesto, a repetir a divisa do seu claro título, “o interminável texto de Luís Serguilha”, porque interminável interminável é. Aí trata de radiografiá-lo na sua estrutura material de cadeia interminável de substantivos adjectivados e verbos regentes separados por nexos relacionantes, que inventaria nalgum exemplo ao acaso, para propor-nos que as células escondem possibilidades ficcionais, que há formas poéticas, como a desta poesia de Luís Serguilha, capazes de negar a fórmula de Ezra Pound, para quem poesia era dizer ‘o máximo no mínimo de palavras’: «E se ‘quase o mesmo’ for um princípio de autossemelhança, como no caso das imagens fractais, como no caso do mar, como no caso do rio de lava em ebulição? E se ‘o máximo de palavras’ for o inesgotável repertório de uma língua, tendendo assintotica mente para o infinito?”».
Com efeito, a poesia de Serguilha coloca-se do lado que já foi chamado da “tradição do ilegível”, a partir da dicotomia entre legibilidade e ilegibilidade a que obrigou o aparecimento do Primeiro Modernismo à volta do Orpheu. Essa modernidade alterou definitivamente a experiência de leitura, e a linguagem deixou de ser só mediadora do real. Quer dizer, continuou a existir um modo de transferência de pensamentos e emoções de um autor, um modo legível a permanecer dentro dos limites habituais de leitura; mas também chegara, para ficar, um outro modo de construir poesia independentemente do real, uma poesia autónoma em si e fundadora de leis internas apenas válidas para a sua formulação, para a sua proposta particular com alterações semânticas dos signos que usa.
Eis o campo global em que se filia a poesia de Serguilha, um magma separado das causas externas e das finalidades posteriores, que não pretende mediar entre um ser humano levantado em poeta, um Filipe Araújo e o que sente e padece de modo reconhecível ele ou o ser humano que está por trás, e um leitor que procure reconhecer nesse magma o seu próprio mundo em volta em tamanho realmente mensurável. Eis uma poesia a mostrar um universo apenas. Esta vertente poética, que em Portugal arranca à volta dos procedimentos poéticos do Orpheu, e especialmente das propostas de Fernando Pessoa com os seus sensacionismo, paulismo e interseccionismo, foi recuperada ao longo da década de 50 e reforçada pela intervenção surrealista, para inserir-se finalmente no chamado Experimentalismo.
Esta vertente poética já deu em Portugal frutos memoráveis, e creio que ninguém negará que Herberto Helder, celebrado núcleo duro da «segunda vanguarda», constitui um totem incontornável. Mas esta vertente, como evidentemente a da legibilidade mais tradicional, também causou terríveis danos, e o rastro de Herberto Helder está cheio de cadáveres de imitadores e êmulos impresentáveis.
Creio que não é o caso de Luís Serguilha, ainda que os juízos de valor relativo só ao tempo correspondem. Serguilha também constrói uma barreira entre si e o leitor com uma cortina de palavras em que não parece haver regra sintáctica, não há pontuação, apenas uma distribuição espacial do texto onde as maiúsculas guiam a respiração, mas, em definitiva, o mergulho fica à pura intuição do ritmo por parte de quem lê. É poesia experimental porque experimenta com objectos poéticos dando importância às intuições e à sua relação dialéctica com os signos. Tem algo de automatismo sur realista, investe em estruturas morfológicas e sintácticas, em analogias verbais, gasta na distribuição visual da mancha de texto, explora as possibilidades estruturais do seu material artístico independentemente de uma declarada intenção significativa.
Mas ninguém acredite na facilidade e inocência, pois o trabalho no experimental tem uma história rica por trás, antecedida por experiências matemático-combinatórias como as de Max Bense, reflexões como as de Mallarmé, tentativas do próprio Ezra Pound –por muito que predique o condensare–. Melo e Castro já marcara a senda honrosa, e não podia ter melhor padrinho Serguilha; mas também pode mos achar-lhe legitimidade em Ana Hatherly, Gastão Cruz, Ramos Rosa, no próprio Herberto Helder. Seria magnífico ter aqui o espaço impossível para dar uma boa amostra do produto salgado, da salsugem sensual, por vezes sexual, de uma poesia que, como o pseudónimo literário que o seu autor escolheu, constitui um tecido grosso mas de palavras de água, sem pêlo nas formas. Serguilha evidente.
Nesta nova singradura, neste trecho percorrido pelo navio da sua escrita, neste tempo de viagem sobre as marés de palavras, o capim que vai arrancando sobre as folhas de papel tem uma abundância luxuriosa, vai do capim-açu ao capim-amarelo, vai do capim-arroz ao capim-bambu, ora oferece flores ora oferece frutos, capim-cabelo de-negro, capim-canudinho, capim-chei roso capim-elefante, capim-das-pampas capim-do-egito, capim-gengibre capim gordura, capim-gomoso, capim-guedes capim-limão, capim-manga capim-mar melada, capim-mururu capim-navalha, capimpeba, capimonga, capim-roseta capim-vermelho, como a capa a partir da pintura de Ana Viana, como a ilustração de Passos da Silva, que acompanha.
Esta resenha foi publicada originalmente na revista Agália números 85-86, 2006, p. 257-259

