Centro Cultural Gulbenkian acolhe instalação «Testimonium» de Jacob Kirkegaard. O artista dinamarquês apela à arte com sensores e hidrofones para amplificar sons e vibrações inerentes a diversos materiais descartados, desde metais a fluxos residuais
Redação |
A partir de 31 de janeiro e até 18 de maio, a Sala de Som do Centro Cultural Gulbenkian de Lisboa, acolhe a instalação «Testimonium» do artista sonoro dinamarquês Jacob Kirkegaard. Inserida no programa «(de)composição», a instalação sonora multicanal e imersiva propõe uma experiência de escuta profunda dos resíduos. A experiência permite ao público sentir a textura auditiva do lixo e descobrir as pulsações vibratórias que habitualmente permanecem invisíveis.
O trabalho de Jacob Kirkegaard (1975) investiga a musicalidade latente em ambientes complexos. A sua prática artística explora fenómenos globais e existenciais, desde a radioatividade em Chernobyl e o degelo ártico até muros fronteiriços e a gestão de resíduos. Kirkegaard também se destaca por suas imersões acústicas sobre a finitude, analisando os processos sonoros relacionados à morte humana.
Inserida no projeto «(de)composição», «Testimonium» utiliza a arte sonora para problematizar a gestão de resíduos. O programa transcende a questão ambiental ao abordar o lixo como um sintoma social, expondo tanto o excesso de consumo quanto a marginalização dos processos e pessoas envolvidos no descarte. A instalação é, em última análise, um apelo à consciência num mundo marcado pela cultura do descartável.
Nesta instalação, a materialidade do lixo é revelada através de uma escuta atenta e tecnológica. «Testimonium» utiliza sensores e hidrofones para amplificar sons e vibrações inerentes a diversos materiais descartados, desde metais a fluxos residuais. Esta composição cria uma paisagem sonora que documenta os detritos da nossa era, funcionando como um relato auditivo sobre o descarte, a persistência da matéria e os processos de recuperação.
Integrando o contexto local, «Testimonium» mapeia sonoramente o percurso do lixo lisboeta. A instalação incentiva uma nova postura perante o que nos rodeia: o ato de ouvir abre a mente para reconhecer valor naquilo que era tido como incómodo, transformando a nossa relação com o consumo e o desperdício.


