Ferramentas para caçar baleias

Caça de baleias no sul do Brasil já existia há 5.000 anos

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Estudo publicado na revista Nature Communications desafia cronologias anteriores e coloca os antigos povos tupis como pioneiros nesta prática marítima.

Redação |

Embora a ciência tenha localizado o auge das primeiras culturas caçadoras de baleias há cerca de três milénios nas regiões árticas e subárticas, a prática possui raízes muito mais profundas e globais. Para muitas comunidades costeiras, a exploração desses animais foi um elemento indissociável da segurança alimentar e da manutenção de identidades culturais que ainda sobrevivem no mundo contemporâneo.

Apesar de o uso de produtos derivados de baleias datar do final do Pleistoceno (12.000 anos atrás), especialistas afirmam que a caça ativa foi um desenvolvimento cultural muito mais tardio. O registos históricos diferenciam o uso oportunista de baleias encalhadas da perseguição marítima organizada. Esta última é classificada como uma adaptação pós-glacial, consolidando-se à medida que as comunidades humanas aprimoraram suas habilidades de exploração dos oceanos após o recuo das geleiras.

Arpões e ferramentas encontrados em escavações recentes fixam a origem da caça ativa às baleias entre 3.500 e 2.500 a.C. Os achados, distribuídos pelo borda norte do Pacífico, o Ártico e Atlântico Norte, reforçam a tese de que a caça sistemática foi uma inovação tecnológica de povos marítimos das zonas frias e polares. Por sua parte, cenas de caça gravadas em pedras na Coreia do Sul, no Mar Branco e na Escandinávia sugerem que o ser humano já perseguia grandes baleias há 6.000 anos.

Porém, as evidências publicadas na Nature Communications demonstram que a caça de baleias no atual Sul do Brasil remonta a 5.000 a.C. O estudo focou na análise de ossos de cetáceos e artefatos musealizados encontrados em sambaquis da Baía de Babitonga, em Santa Catarina. O material, proveniente de sítios arqueológicos situados entre as cidades de Joinville, São Francisco do Sul, Itapoá e Araquari, desafia cronologias anteriores e coloca os antigos povos tupis como pioneiros nesta prática marítima.

Os estudos zooarqueológicos em sítios de sambaquis confirmam que os povos originários do litoral da atual Santa Catarina utilizavam uma grande diversidade de cetáceos, como a baleia-franca-austral, o golfinho-franciscana e várias espécies de Delphinidae. A presença frequente de ossos com marcas de corte comprova o abate e o processamento desses animais. Para além da subsistência, o uso de ossos de grandes baleias em ornamentos, ferramentas e como parte de rituais funerários reforça a importância cultural e espiritual desses gigantes do mar para os povos da Baía de Babitonga.

Estes depósitos arqueológicos conhecidos como sambaquis (do tupi “amontoado de conchas”) são alguns dos principais registos da ocupação humana na atual costa brasileira entre 8.000 e 2.000 anos atrás. Formados por conchas, ossos e materiais orgânicos, esses montículos serviam como habitações e espaços funerários e marcações territoriais. Esta prática deu nome a uma cultura que aglutinou diferentes povos que viveram principalmente no litoral do Brasil, do Espírito Santo ao Rio Grande do Sul, especialmente em Santa Catarina.

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