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Atualmente, o lobo ibérico encontra-se maioritariamente no quadrante noroeste da Península Ibérica, com uma população estimada em cerca de 2.500 lobos. De acordo com os censos oficiais, 150 alcateias distribuem-se pela Galiza e o Norte de Portugal.
O censo 2021/22 realizado pela Junta da Galiza conclui que existem 93 alcateias distribuídas por quase a totalidade do território galego, embora um estudo do Instituto da Biodiversidade Agrária e Desenvolvimento Social indica que o censo oficial poderia estar subestimando a população até mais de 40%.
Pela sua parte, durante o censo 2019/2021 do lobo em Portugal foram detetadas 58 alcateias, a grande maioria a norte do Douro, distribuídas por três núcleos (Peneda-Gerês, Alvão-Padrela e Bragança), existindo apenas cinco a seis a sul do rio.
Na Galiza, a gestão do lobo se tornou um campo de batalha político e social desde que em 2021 foi incluído na Lista de Espécies Silvestres em Regime de Proteção Especial (LESPRE). Esta decisão, aplaudida por organizações ambientalistas, proíbe a sua caça e promove medidas de coexistência. Esta medida representou uma mudança para muitos indesejada na gestão de uma população lupina, que era gerida a através de controlos cinegéticos,
Em Portugal, a situação é algo diferente, mas igualmente complexa. O lobo é uma espécie protegida desde 1990 e a sua caça é proibida. A legislação reconhece o seu estatuto de conservação, implementando medidas para minimizar os conflitos com as atividades humanas, nomeadamente a pecuária. No entanto, os desafios persistem.
A criminalização política e mediática
A inclusão do lobo no LESPRE foi recebida com forte oposição por parte do governo galego e dos setores agrícola e pecuário. A narrativa predominante tem sido a de que a proteção estrita do lobo leva a um aumento exponencial dos ataques ao gado, comprometendo a subsistência dos criadores e pondo em risco a atividade rural. Esta retórica contribui para uma criminalização política e mediática onde o lobo é retratado não como um elemento vital do ecossistema, mas como uma ameaça a ser controlada.
A Junta da Galiza defende que a gestão do lobo deve ser da sua competência exclusiva, argumentando que a realidade galega, com a sua elevada densidade populacional de lobos e a forte presença de gado em regime
extensivo, exige abordagens específicas. Propostas para permitir abates seletivos têm sido reiteradamente apresentadas, mas colidem com a legislação estatal de proteção. Esta disputa tem gerado um clima de tensão e incerteza para os produtores, que se sentem desamparados perante os prejuízos e a burocracia associada às compensações.
No Grupo Lobo, estimam cerca de 200/250 exemplares por ano causada pela caça furtiva, o que provocaria o estancamento da população e a alteração do seu comportamento por não se ter em conta o papel do indivíduo abatido nesse território.
Impacto na pecuária e medidas de coexistência
Os dados sobre os ataques de lobos ao gado são frequentemente objeto de debate. Enquanto as associações de criadores denunciam um aumento, as estatísticas oficiais e os estudos científicos nem sempre corroboram a mesma magnitude. No entanto, é inegável que os ataques ocorrem e representam um duro golpe para os criadores, tanto economicamente quanto emocionalmente. A perda de animais significa uma diminuição direta nos rendimentos e um aumento dos custos e trabalhos com a vigilância e a reparação de danos.
Para mitigar estes conflitos, têm sido implementadas diversas medidas de coexistência como a distribuição de cães de gado (como o cão de gado transmontano ou o mastim galego), a instalação de vedações elétricas, a agrupação do gado em parques noturnos e a vigilância humana. Em Portugal, programas como o Fundo para a Conservação do Lobo Ibérico (FCL) ou o Programa LIFE “WolvesatDoor” têm desempenhado um papel crucial.
Indicador ambiental e desafio para o futuro
Apesar das controvérsias, a presença do lobo é um indicador da saúde ambiental dos ecossistemas. A sua importância como predador de topo na regulação das populações de herbívoros selvagens e na manutenção do equilíbrio ecológico é amplamente reconhecida pela comunidade científica. A sua conservação é um imperativo ético e ambiental, alinhado com os compromissos internacionais de biodiversidade.
O desafio reside em encontrar um equilíbrio entre a proteção eficaz do lobo e a sustentabilidade das atividades humanas, em particular a pecuária extensiva, que desempenha um papel crucial na paisagem e economia rural.
A história do Lobo é um espelho das tensões inerentes à coexistência entre a vida selvagem e as mentalidades urbanas. Superar a criminalização política e mediática e promover uma visão integrada e sustentável será crucial para que o uivo do lobo continue a ecoar livremente nas nossas montanhas e vales.


