O uso de drones transformou os repórteres em alvos fáceis. Em muitos casos profissionais da comunicação foram assassinados enquanto utilizavam coletes e capacetes identificados.
Redação |
O relatório anual da Repórteres Sem Fronteiras (RSF) revela 2025 como um “ano mortal” resultado de uma cultura global do ódio, da impunidade e do desmantelamento das salvaguardas democráticas.
O ódio cultivado em gabinetes políticos e amplificado por algoritmos, rotula a imprensa como “inimiga do povo”, “agente de interesses estrangeiros” ou “fabricante de notícias falsas”. Como consequência, o jornalista passou a ser tratado como um alvo legítimo de guerra ideológica. O ódio institucionalizado manifesta-se em leis e ações repressivas que servem para silenciar as testemunhas para que a narrativa do vencedor não possa ser contestada.
A mortalidade de jornalistas atingiu picos alarmantes em zonas de conflito armado, onde o direito internacional tem sido banido. O uso de drones e tecnologias de vigilância transformou os repórteres em alvos fáceis. Em muitos casos documentados, profissionais da comunicação foram assassinados enquanto utilizavam coletes e capacetes identificados.
Um dos pontos levantados pela RSF é a impunidade. Em cerca de 90% dos casos de assassinatos, os responsáveis não enfrentam a justiça. Mesmo em democracias estabelecidas, o aumento de agressões durante protestos de rua e o assédio judicial, têm sido usados para asfixiar financeira e psicologicamente os profissionais.
O relatório dedica uma secção à violência sofrida pelas mulheres jornalistas. Este ódio é frequentemente carregado de misoginia e ameaças de violência sexual. Muitas jornalistas enfrentam uma dupla ameaça: a retaliação pelo seu trabalho profissional e a agressão baseada no género.
É preciso mencionar o papel das gigantes tecnológicas. A desinformação orquestrada e as campanhas de difamação nas redes sociais servem como prelúdio. A rapidez com que uma mentira se propaga cria um ambiente de linchamento virtual que transborda para o mundo real. A falta de moderação e a opacidade dos algoritmos tornaram estas plataformas em cúmplices ou por vezes negligentes, de facto. A RSF apela a uma regulação mais estrita que obrigue as plataformas a proteger o espaço público de informação e os seus atores.
Uma outra consequência é a erosão do direito fundamental da informação. O medo instala-se, levando à autocensura, e zonas inteiras de alguns países transformaram-se em “desertos de notícias”, onde o crime opera sem qualquer escrutínio.

