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Numa era dominada pelo digital e pelo aumento da censura, o livro físico reafirma-se não apenas como um suporte de conhecimento, mas como um bastião de liberdade intelectual. É sob este mote que a Fundação de Serralves, no Porto, apresenta a exposição “Livros de Resistência: A resiliência dos livros de artista na era digital“. Com curadoria de Christophe Boutin, a mostra reúne obras de várias gerações e contextos que utilizam o livro como uma extensão íntima e direta da sua prática artística.
A exposição abre simbolicamente com a curta-metragem The Rain (1969), de Marcel Broodthaers. No filme, o artista tenta escrever um texto enquanto a chuva dissolve a tinta, num ato de resistência que ilustra a persistência da expressão artística perante o apagamento. Broodthaers, que transitou da poesia para as artes visuais, é uma figura central na mostra, demonstrando como os livros podem ser objetos conceptuais que desafiam as fronteiras entre texto e imagem.
A instalação destaca-se pela sua cenografia intensa: paredes, vitrines e chão tingidos de vermelho, cor que evoca urgência e resistência. Embora protegidos em vitrines, o que sublinha a sua fragilidade e valor como testemunho, estes livros comunicam uma força política e social profunda.
O percurso expositivo atravessa temas como identidade, raça e justiça social. Entre os artistas convidados, destacam-se BlackMass Publishing, focada na cultura negra americana e na promoção de vozes sub-representadas através do design inovador. A artista portuguesa Carla Filipe explora a identidade cultural e a história social utilizando materiais do quotidiano e objetos encontrados. Por sua parte, o coletivo Bread and Puppet Theaterque alia marionetas gigantes a publicações de forte pendor ativista e político.
Completam a lista de artistas Kandis Williams (Cassandra Press), Marcel Broodthaers, Sébastien de Ganay, Ryan Gander, Stefan Marx, Annika Ström, Martine Syms, Norat Turato, Kandy Williams e Honza Zamojski.
Enquanto conteúdos digitais enfrentam a obsolescência, os livros permanecem como santuários e espaços de reinvenção. A exposição prova que, seja através de desenhos poéticos ou de explorações linguísticas o livro continua a ser uma ferramenta essencial para compreender e desafiar o mundo em que vivemos.
“Livros de Resistência: A resiliência dos livros de artista na era digital“, é uma oportunidade de redescobrir o poder silencioso da provocação e a materialidade da arte através do livro, numa ponte viva entre o pensamento e a sua preservação física.

