Diferente do conceito moderno de arte como processo criativo e como resultado estético, o termo Ars refere-se, neste contexto, à sabedoria em ação. Alude à capacidade prática baseada em um conhecimento profundo das leis da natureza e do espírito. Não é apenas teoria, nem técnica, mas o ponto onde o saber se torna uma força transformadora. Ars é o fazer consciente. É a ponte que transforma o idealismo do espírito na realidade material através da inteligência, da intenção e da destreza humanas.
Conhecimento e sabedoria são coisas diferentes. O primeiro é uma acumulação de informações, fatos e leis lógicas. É externo e reside, predominantemente, na esfera do intelecto. O conhecimento é, com frequência, frio, fragmentado e utilitário. Por sua parte, a sabedoria, passou o conhecimento pelo calor da experiência e foi digerido pelo sentimento e pela vontade. A sabedoria é interna e orgânica, e não apenas sabe, mas compreende e integra os significados e os impactos no todo.
Na Ars Médica, a cura não é vista como o conserto de uma máquina, mas como um processo artístico. O médico atua como um artista que observa o desequilíbrio de forças na pessoa enferma (in firmus > sem firmeza). O médico não cura, ele introduz elementos (remédios, terapias, medicamentos e cirurgias) que convidam o ser a retomar a sua firmeza. Ele pratica a habilidade de ler o livro da natureza humana e intervir com criatividade e intuição.
A Ars Poética não é apenas escrever versos, mas a capacidade de usar a palavra para estruturar o pensamento social, dando forma ao que antes era apenas caos ou sentimento vago, a través da utilização das leis da linguagem e da forma para manifestar verdades universais.
Se a Ars Médica cura o corpo e a Ars Poetica eleva a alma, a Ars social harmoniza as relações entre os seres humanos, e pode ser considerada como a arte de tecer o organismo social de forma que ele se torne saudável, funcional e digno do espírito humano.
A sua prática exige a consideração de três elementos: o ser humano é a matéria-prima, a trimembração social como geometria equilibradora e a observação fenomenológica.
No primeiro elemento da tríade, a substância trabalhada é o relacionamento humano. O artista social olha para o conflito, para a desigualdade ou para a apatia como uma massa disforme que precisa de uma nova forma que institua ou restitua a sua harmonia.
No segundo elemento, o artista segue a geometria do organismo social vivo. O artista social busca equilibrar três esferas: liberdade na vida cultural, igualdade na vida jurídica e fraternidade na vida económica. Na vida cultural, trabalha para garantir que o pensamento e a arte não sejam escravos do estado ou do capital; na vida jurídica, para criar acordos e leis onde cada indivíduo seja reconhecido na sua dignidade e, na vida económica, intervém para transformar a produção e o consumo em atos de cuidado mútuo, e não de exploração, quer de outros seres humanos, quer do planeta.
No terceiro elemento, assim como um pintor precisa aprender a ver as cores, o artista social precisa aprender a perceber as correntes invisíveis em um grupo. Ele tem de ter a capacidade de ouvir o que não foi dito e de criar processos e espaços onde o Eu do outro possa florescer.
No contexto atual, a Ars social manifesta-se através de comunidades intencionais, onde a convivência é desenhada como uma obra de arte coletiva; de processos de diálogo, para transformar um encontro de colaboração social em uma escuta profunda, onde a solução surge da harmonia das vozes, e não da imposição de uma maioria e, finalmente, da economia associativa, onde o fluxo do dinheiro é como a circulação sanguínea do organismo social.
A Ars social exige de consciência de inversão: em vez de perguntar, o que eu quero da sociedade?, o artista social pergunta, o que o organismo social precisa que eu crie agora? Ela é o fim da arte como expressão egóica e o início da arte como serviço ao mundo: é transição do Eu para o Nós.


